Período pré-Cristão, Cristianismo e invasão muçulmana
A região onde hoje se situa a cidade de
Tavira, foi outrora influenciada pelos vários povos que aí habitaram, como os
Fenícios,
Lígures,
Celtas e
Turdetanos e, mais tarde, os
Romanos e
Cartagineses. A presença dos Romanos na
Península Ibérica, e em particular no
Algarve, estabelece o
Cristianismo nos finais do
século III, com a criação da diocese de
Faro (Ossonóba), e a nomeação do primeiro bispo D. Vicentius.
O
século V assiste a nova presença de povos que invadiram a Península Ibérica, como os
Suevos,
Silingos,
Alanos e os
Visigodos. Estes últimos dominaram a região do Algarve até ao início do
século VIII.
Com a subida ao trono de
Rodrigo, último rei visigodo, alguns dos nobres não aceitaram que este fosse o legítimo sucessor, dando assim início a uma guerra civil. Estes nobres, liderados pelo Conde Julião, foram apoiados pelos muçulmanos que, em breve, dariam início à
invasão da Península. Os cinco séculos seguintes são de domínio
Árabe, em todo o Algarve.
No início do
século XII, Tavira era considerada como uma pequena povoação mas, o facto ter já um
castelo, dava-lhe assim uma certa importância. Em
1151 dá-se uma primeira revolta de Tavira à presença muçulmana, sendo o seu castelo cercado sem, no entanto, cederem à pressão das forças árabes. Mais tarde, em
1167, regista-se nova tentativa de desalojar os tavirenses do seu castelo.
Em
1239, D.
Paio Peres Correia, conquista Tavira aos mouros. Cinco anos mais tarde, em
9 de Janeiro de
1244, D.
Sancho II doa o Castelo de Tavira à
Ordem de Santiago, da qual D. Paio era seu comendador, sendo esta doação confirmada pelo
Papa Inocêncio IV, em
8 de Setembro de
1245.
Em
1266, Tavira recebe o seu primeiro
foral, dado por D.
Afonso III, em
12 de Julho, que dá à cidade um acrescido desenvolvimento económico e social. A população moura é integrada na cidadela, dando origem à zona da mouraria. Anos depois, em
1269, Tavira recebe novo foral, dedicado aos mouros, que regulamentava os direitos e deveres destes.
Este século é um período de grande desenvolvimento comercial, nomeadamente ao nível do comércio externo, através do Porto de Tavira; e social, pois torna-se numa zona atractiva, tanto para as classes mais altas, como a
nobreza e
fidalguia, como para cidadãos mais modestos, constituídos por comerciantes, artífices, camponeses, pescadores, entre outros.
[editar] Prosperidade e grandeza
[editar] Século XIV
Em
1303, o rei D.
Dinis visita Tavira e, constatando a importância estratégica da mesma, nomeadamente o seu posicionamento geográfico, face ao
oceano Atlântico, manda reconstruir as muralhas do castelo, as quais haviam sido danificadas na conquista aos mouros. Ao mesmo tempo, o Porto de Tavira ganha ainda maior atenção, e Tavira aumenta a sua exportação de produtos como o
sal e o
peixe, dado mostrarem-se excedentários para a povoação. O sal passa a ser moeda de troca para as importações, das quais se destacam os
cereais.
Além de importância comercial, o Porto de Tavira servia de base naval para apoio à armada que combatia os ataques navais.
Em
1337, o rei de Castela,
Afonso III, invade o Algarve, e cerca Tavira em, durante três dias. Neste período, as tropas invasoras vandalizam os armazéns que guardavam os cereais comercializados pelo Porto da vila. De acordo com a lenda, o cerco termina após Afonso III ter visto as figuras dos
Sete Cavaleiros cristãos mortos pelos mouros numa emboscada.
O desenvolvimento de Tavira sofre o primeiro grande revés em
1343, quando a
Peste Negra a atinge. O porto de Tavira terá sido uma das principais portas de entrada, dado o seu grande movimento comercial e, consequentemente, de pessoas vindas das mais variadas origens.
Na segunda metade deste século, o principal factor económico relevante, foi a pesca da
baleia, cuja importância já tinha sido reconhecida por D.
Afonso IV, ainda antes da epidemia. O rei comprometeu-se a garantir o sal que era necessário para a conservação da carne de baleia.
Em visita a Tavira, no ano de
1359, o novo rei, D.
Pedro I, constata, de novo, a importância da vila como grande centro comercial marítimo, tanto nacional, como estrangeiro. Tavira é o principal entreposto do território, factor que gera o aparecimento de uma classe
burguesa comercial abastada.
No final do século XIV, Tavira era a região mais importante do
Reino do Algarve. A economia era controlada pelos
judeus, tendo os direitos destes sido reconhecidos por D.
João I, em
15 de Outubro de
1386.
O
século XV é, para Tavira, o seu período mais grandioso e de prosperidade. Em
1415, o porto de Tavira é o ponto de partida da armada portuguesa para o Norte de
África. Daqui partem, mais de 200 navios, e 45.000 homens. Após a conquista de
Ceuta, a armada de D. João I regressa, e desembarca em Tavira.
Economicamente, Tavira, e outras cidade do Algarve, efectuam intercâmbio comercial com outras cidades da
Europa, sendo a principal
Bruges. Exportava-se sal, peixe, vinho e frutos, e importava-se cereais, panos, manteiga, cavalos e
estanho. A actividade piscatória era uma das mais importantes, destacando-se a pesca do
atum, que duraria até ao século XX.
No campo político, Tavira recebeu a
Corte de D.
João II, que permaneceu cerca de três meses nesta cidade, decorria o verão de
1489. Esta decisão, de deslocar a Corte para o Algarve, teve a ver com os problemas que vinham ocorrendo nos territórios portugueses em África. Assim, o poder governativo estaria mais próximo dos acontecimentos.
Em
1498, nas Cortes de Lisboa, convocadas por D.
Manuel I, Tavira ocupou o terceiro banco.
[editar] Século XVI
O
século XVI é um marco para a história de Tavira pois, por carta régia, Tavira é elevada ao estatuto de cidade em
16 de Março de
1520, por D.
Manuel I. As fronteiras da vila estavam em constante crescimento, tal como a sua população e influência administrativa. Este novo estatuto é a principal consequência deste desenvolvimento urbano; também o facto de Tavira ter sido um importante ponto estratégico para a defesa dos territórios portugueses do norte de África, e ter contribuído para as guerras contra
Castela, ajudou àquela decisão. Destaque-se o cerco a
Arzila pelos mouros, em
1508, cuja defesa, pelas tropas portuguesas, foi preparada em Tavira; grande parte deste contingente de 25.000 homens, era de Tavira. Como agradecimento, D. Manuel I, mandou construir o Convento de S. Bernardo, no local onde se tinham aquartelado as tropas.
Tavira era, em
1527, o centro populacional mais destacado do Algarve, à frente de
Lagos,
Faro,
Loulé ou
Silves. Tavira apenas ficava atrás de
Lisboa,
Porto,
Santarém e
Elvas. A sua principal indústria era a armaria, com cerca de 10 oficinas, que tinham por objectivo a reparação de armaduras, lanças e espingardas, das tropas estacionadas em África. O comércio marítimo florescia, e recebia privilégios como forma de incentivo. Exemplo destes privilégios, é a dispensa do pagamento de direitos a tudo o que fosse comercializado para fornecer os navios do Estado, por D.
João III. A importância comercial de Tavira foi confirmada em
1550, por carta de D. João III, datada de
10 de Março, em que era autorizada uma feira com a duração de 49 dias com início a 1 de Setembro de cada ano. Também D.
Henrique I, em
1579, concedeu benefícios comerciais, aumentando o tempo de duração da feira anual, para três meses (Setembro, Outubro e Novembro).
[editar] Decadência e estagnação
[editar] Século XVI
O último quartel do
século XVI, é um período conturbado, tanto pelo início da governação espanhola por
Filipe I, como pelo surto de peste em
1580. O porto de Tavira foi encerrado, e mesmo a entrada de estranhos na cidade era proibida. A população diminuiu de forma muito acentuada. A acrescer ao surto de peste, grande parte das culturas foi devastada por uma praga de gafanhotos.
Ainda assim, a cidade de Tavira, graças aos seu privilégios e recursos naturais, e económicos, conseguiu superar aquelas dificuladades. A pesca do atum continuava o seu forte desenvolvimento, e representava um dos pilares fundamentais da economia das populações de um nível social mais baixo. A frota que frequentava o porto de Tavira apenas ficava atrás da de Lisboa.
No entanto, o virar o século aponta para um decréscimo económico, social e demográfico, em grande medida causado pela oposição desta cidade à governação filipina, e às suas políticas. Acresce a ameaça dos próprios inimigos de
Espanha, como os
ingleses, que frequentemente atacavam o território algarvio. Em
1596, o concelho de Loulé e de Faro, é atacado pelas tropas de
Francis Drake; e da
Inquisição, que não só incomodava
Filipe II, como preocupava a população algarvia, que se refugiava nas ordens religiosas, como meio de serem vistos como “bons cristãos”.
Em
1599, novo surto de peste invade Tavira, e duraría até
1602 A Câmara afirma, dez anos depois, que a cidade “parecia mais aldeia que cidade” (sic). A estrutura urbana estava decadente, e toda a população, mesmo a mais abastada, sofria as consequências de uma séria crise económica e social.
[editar] Século XVII
O porto de Tavira, anterior origem do desenvolvimento económico, social e demográfico, encontra-se, em
1622, em declínio, pelo assoreamento do rio e da barra. As famílias nobres, que antes ocupavam os cargos de administração local, foram, a pouco e pouco, afastados pelos sucessivos governos de Espanha. O desagrado destas famílias era constante, e deu origem a diversos conflitos, e a uma oposição crescente contra o
domínio filipino.
Em
1637, deu-se um dos principais movimentos de revolta, que teve origem nas populações rurais. Diversos habitantes de freguesias como
Moncarapacho,
Santo Estêvão e
Santa Catarina da Fonte do Bispo, invadem a cidade de Tavira, juntando-se-lhes alguma população urbana, e atacam vários locais públicos como os cartórios. No entanto, a revolta foi desfeita pelas tropas castelhanas. Os anos seguintes foram de forte agitação social, até à
Restauração de
1 de Dezembro de
1640. Por esta altura, o Algarve vivia uma situação de forte declínio económico e político. A Restauração vem trazer uma nova esperança ao país. Em
1641, D.
João IV confirma todos os privilégios anteriormente concedidos a Tavira.
Em
1645, com o regresso de muita gente do Norte de África, principalmente de
Tânger, nova epidemia de peste assolou a cidade de Tavira. Durou cerca de um ano, matando perto de 5.000 pessoas.
A acrescer a toda a instabilidade que se vivia por todo o território, a costa Algarvia era alvo de constantes ataques da pirataria moura. As defesas costeiras de Tavira tinham ficado ao abandono durante o reinado filipino, o que não permitia uma eficaz defesa contra aqueles ataques. O
Forte de São João da Barra de Tavira (ou
Forte de S. João Baptista), é acabado de construir em
1672, dois anos após o início da sua edificação.
Em
1661, com o casamento de D.
Catarina, irmã de D.
Afonso VI, com o rei de Inglaterra D.
Carlos II, é feito um contrato nupcial em que, tanto
Tânger como a Ilha de Bombaim, seriam cedidos à
Inglaterra. Este facto irá desencadear um movimento populacional de larga escala, recebendo Tavira cerca de 600 pessoas, entre civis e militares. Se por um lado, a mão-de-obra aumentou, por outro lado, os problemas sociais também, devido à falta de alojamento e alimentação. Em termos demográficos, Tavira era a quinta cidade com mais população, contando-se cerca de 6.000 habitantes.
O abandono das possessões portuguesas em
Marrocos, com o crescente interesse na
Índia, e
Brasil, nas últimas décadas, foram factos negativos para o desenvolvimento da cidade de Tavira, que viu a sua importância estratégica ser reduzida, com a consequente decadência económica e social.
[editar] O Renascer no século XVIII
O
século XVIII traz de alguma forma, um renascer à cidade de Tavira. Mais do que em termos económicos, Tavira assiste a um forte desenvolvimento urbanístico, principalmente por iniciativa da burguesia residente.
As construções de natureza religiosa, e militar, prosperaram neste período, em que foram construídos a
Igreja de Nossa Senhora do Carmo, e
Convento anexo; o Santuário da Ordem Terceira; a Ermida de Santa Rita; a
Capela de São Sebastião; a Ermida de São João; a Capela de Nossa Senhora da Piedade. São também feitos melhoramentos, em várias edificações religiosas já existentes, como a construção do retábulo na Igreja de Nossa Senhora do Carmo; a torre da
Igreja de Santiago; os painéis de azulejos da Igreja da Misericórdia. Em termos militares, é construído, em
1760, um Hospital Militar, e o
Quartel da Atalaia, em
1795.
Tavira sofreu, neste século, três terramotos de grande dimensão. O primeiro em
6 de Março de
1719; um segundo, a
27 de Dezembro de
1722; e o de
1 de Novembro de 1755.
No sector económico, a política do
Marquês de Pombal, permitiu o desenvolvimento das
salinas e, por alvará régio de
15 de Janeiro de
1773, é criada a
Companhia Geral das Pescas do Reino do Algarve. Na indústria, é criada uma fábrica de tapeçarias de
lã e
seda, e é apoiada a plantação de
amoreiras, para alimento do
bicho-da-seda. Na serra algarvia era produzido um produto de tinturaria, designado por grã,
kermes ou quermes, (ver
Carmesim), que era exportado para o norte de África e sul de
França.
Ao nível demográfico, Tavira tinha uma população de 12.000 habitantes, no final do século XVIII.
[editar] Do século XIX aos nossos dias
[editar] Ocupação francesa, regime absolutista e regime liberal
O início do
século XIX é marcado, em Portugal, pelas
invasões francesas. A ocupação do Algarve é feita por Faro, em finais de
1807. A ocupação trouxe as inevitáveis alterações de governo, extinguindo o posto de Governador ou Capitão General do Reino do Algarve, existente desde
1755. A revolta popular dá-se em Junho de
1808, espalhando-se pelo Algarve, desde Faro a
Vila Real de Santo António, passando por
Castro Marim e Tavira. Os invasores franceses acabam por abandonar o país.
Até
1820, o país vive uma certa tranquilidade, até às sucessivas guerras civis, desde
Revolução Liberal de 1820, até
Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), terminando com a paz com a
Concessão de Évora Monte.
Tavira sofre, também, as consequências destas constantes alterações de governo. Em 1822, num regime liberal, é eleito o primeiro presidente da câmara, Sebastião Martins Mestre; com a tentativa de repôr o Absolutismo, dá-se a
Abrilada, sendo o cargo de presidente da câmara extinto, e reposto o de Juiz de Fora.
Embora de uma forma geral, a cidade de Tavira seguia o
Absolutismo de D.
Miguel, de tradição conservadora e religiosa, por várias vezes se verificaram levantamentos militares contra o seu governo. A influência miguelista em Tavira, tem o seu fim quando o
barão de Sá da Bandeira, Comandante Militar do Reino do Algarve, entra na cidade. Em
1837, o Batalhão de Caçadores nº5, leal aos liberais, instala-se em Tavira, no
Convento de Nossa Senhora da Graça.
Com o regime liberal, é extinto o cargo de Governador e Capitão General do Reino do Algarve, cujo palácio estava instalado em Tavira, e substituído pelo de Governador Civil de Faro. A divisão administrativa do Reino do Algarve, passa a designar-se por Distrito Administrativo do Algarve. As instituições religiosas são extintas, sendo as suas edificações ocupadas pelo novo governo liberal.
[editar] Desenvolvimento económico e social

Mercado Municipal de Tavira
Economicamente, a cidade assistiu a algum desenvolvimento, que passou pela actividade pescatória, nomeadamente pela pesca do atum, pela criação de armações e da Companhia de Pescas do Algarve. A construção do Mercado Municipal termina em
1887 (o mercado seria extinto em
1999)
O século XIX é um período de desenvolvimento urbano e rural. São construídas escolas primárias, a primeira em
1838. O apoio social é reforçado com a criação da Associação de Socorros Mútuos Montepio Artístico Tavirense, em
1857; com a criação da Roda dos Expostos, destinada à protecção de crianças abandonadas; e com a construção de bairros sociais, nomeadamente o Bairro Jara.
Ao nível das obras públicas, a estrada que ligava Faro a Tavira e Vila Real de Santo António, é
macadamizada, em
1862; em
1873, este processo é feito na estrada para
Santo Estêvão; em
1875, é feita a estrada entre
Cabanas de Tavira e a povoação de
Conceição. O
comboio chega a Tavira em
1905.
Tavira viveu os primeiros anos do novo regime de forma relativamente pacífica, acompanhando as várias mudanças governativas que se fizeram sentir neste período. No entanto, o mesmo não de passou com o regime saído da
Revolução de 28 de Maio de 1926. Em Fevereiro de 1927, uma junta revolucionária ocupa a câmara municipal, mas sem o apoio do restante país, esta revolta não surtiu efeito.
Durante o Estado Novo, foram construídas mais escolas, no seguimento da política educacional de
Salazar, destacando-se a criação da Escola Técnica (
1960), e a primeira Escola Preparatória (
1968).
Em relação à perspectiva económica, são construídos três fábricas de conservas, e na
década de 50, começa a sentir-se os primeiros sinais da indústria turística, actual fonte de entrada de divisas em Tavira.
[editar] Actualmente
Actualmente Tavira é uma cidade essencialmente turística. Os tempos da pesca do atum, terminaram em
1972, mas a indústria do sal aínda continua